Como o The Send Brasil e a discussão da música AUÊ mostram que o foco da Igreja não está na proclamação do Evangelho em si, mas em expressões artísticas, culturais e shows feitos por cristãos.
A primeira semana de fevereiro foi quente e agitada no meio gospel. Um grande evento na virada do fim de janeiro The Send Brasil. Mal ele acabou, recheado de profecias e mensagens políticas nas suas entrelinhas, com a participação de figuras evangélicas proeminentes, uma música chamada AUÊ, escrita pelo cantor Marco Teles, diretor do grupo musical Coletivo Candieiro, entrou em evidência por conta de expressões usadas em sua letra, tidas por muitos como, no mínimo, estranhas.
A ideia deste texto não é julgar se a letra da música contém contornos de ou referências a outras religiões, pois nas redes sociais há pessoas atacando o grupo (sobretudo na figura do diretor), assim como muitos outros o defendem, explicando que Coletivo Candieiro usa expressões e ritmos nacionais, sendo uma banda de conexão missionária e missional com o público brasileiro, etc. Bom, também não há interesse algum em defender ou não a ideia de que vidas (jovens) são impactadas no The Send Brasil.
O problema principal em tudo isso é esquecido: enquanto (alguns) cristãos atacam a música julgando que ela contém traços de outras religiões e por isso não deve ser ouvida, ou (outros) exaltam a Deus por um evento em que -supostamente- a bandeira do evangelismo é levantada, é que o Evangelho não está presente. Ou seja, a Igreja perde tempo com discussões, queima dinheiro na produção e organização de eventos em que o principal assunto relacionado a ela não existe: Jesus.
The Send Brasil - mais do mesmo: muito de profecias e astros evangélicos, pouco de Jesus
Como evento, o The Send Brasil é um sucesso. Capacidade de lotar estádios de futebol com jovens que, sim, podem fazer a diferença nos lugares onde estão, na sociedade em geral. No entanto, as pessoas parecem confundir movimento grandioso (que existe) com resultados concretos (que não se veem nos meses subsequentes aos shows e palestras), começando pelas pessoas que pegam o microfone para falar ao público.
Os vídeos publicados nas redes sociais estão recheados de falas enfáticas e profecias, principalmente de estrangeiros, sobre o Brasil e como deus (sim, em minúsculo) está expondo a corrupção e a desordem política como preparação para um novo tempo na nação. Acontece que nosso país, infelizmente, é pródigo em casos assim e se voltarmos no tempo, em outros eventos parecidos com o The Send ou shows de pessoas que estavam no palco vociferando, veremos as mesmas falas. E de lá pra cá, nada mudou.
É sempre mais do mesmo: "o Brasil é de Jesus", "Deus está levantando uma geração para impactar essa nação" e etc. O problema é que não há como isso acontecer se a Igreja se mantiver nesse ciclo de shows e eventos, que só entretêm e impactam emocionalmente o público cristão, e não transformar o Evangelho em algo prático, vivido no dia a dia. Enquanto essas profecias eram vociferadas, ninguém ao menos pensou sobre como explicar ao vizinho ou colega que o ensinamento de Jesus é o antídoto para a injustiça, desigualdade, corrupção ou intolerância (que se manifesta na polarização do debate público).
A Igreja no Brasil não impactará e fará a diferença na sociedade simplesmente porque essas estruturas não são o Evangelho. Muito menos poderá apontar com autoridade para os problemas, propondo como solução aplicar o núcleo do ensino de Cristo (Mt. 22:37-40), se desses eventos participam pessoas envolvidas com política (como é o caso do pr. Silas Malafaia, que arregimenta evangélicos para a causa do ex-presidente Jair Bolsonaro, que é um homem que já mostrou ser alguém em quem não se pode confiar) ou estrelas gospel, como a cantora Ana Paula Valadão, envolvida em brigas e rixas públicas com a família e a ex-igreja.
Isso tudo é simplesmente outra coisa, bem diferente do que Jesus ensinou, não causa impacto algum em quem precisa conhecer o Evangelho e, além disso, entender como ele faria a diferença em um Brasil onde o amor ao próximo e a Deus fosse uma realidade. Mais ainda, a Igreja deveria ter como única fórmula evangelística e missional explicar às pessoas que desde o lixo na rua, até os supersalários do funcionalismo público, os problemas da nação encontram resposta no que Jesus ensinou em Mateus 22:38 -não fazer aos outros o que não quero que façam a mim.
AUÊ | Coletivo Candieiro - ricos de produção artística, desenvoltura e arte; pobres de Evangelho
Outro bom exemplo do que não é Evangelho foi a polêmica música AUÊ. Muitos contra, vários apoiando e explicando o que o(s) autor(es) pretendeu(ram). No entanto, produção artística não é Evangelho, portanto não causa impacto de conversão nas pessoas (por mais que Deus possa se manifestar por meio da arte, assim como o faz através da natureza, tecnologias ou conquistas humanas).
Embora muitos ao ler este texto talvez argumentem que Jesus pode se manifestar através da arte e, portanto, a música (qualquer que seja ela) é válida como uma expressão de relevância para a conversão de pessoas, a verdade é que Cristo tem o poder de usar quase qualquer coisa como ferramenta de comunicação e compreensão da fé (pois isto é da ordem dos milagres e não do esforço humano, propriamente). O caso mais emblemático é o de Dimas, o ladrão da cruz: foi pelo sofrimento e diálogo com os outros personagens (o bandido cético e Jesus) que sua consciência se abriu para a salvação.
Todo o esforço para produção e gravação, o tempo e energia dedicados a atacar ou defender uma música ou banda, os espaços ocupados pela Igreja nas redes sociais... tudo isso sendo usado para algo que não é o principal que foi ensinado por Jesus: mostrar às pessoas que ao viverem Mt. 22:37-40 elas têm a sua vida mudada. É aí que a justiça de Deus, a bondade que O compõe em essência, a esperança, alegria e tudo o que podemos imaginar de bom e saudável para o ser humano viver neste mundo começam a se manifestar de forma prática e alterar o ordinário, o cotidiano.
Conclusão
A igreja não foi chamada por Jesus para produções artísticas, nem para organização de eventos. Essas coisas não farão com que a realidade das pessoas mude, de fato. Isso tudo não passa de expressão cultural e ocupação de espaço por e para um público segmentado (o gospel). Mas, no fim das contas, para quem está olhando de fora e vivendo na injustiça, na desigualdade, no absurdo, na violência, etc., a cultura gospel não faz nenhum sentido (ela propicia, sim, mau testemunho e afastamento). É tudo fumaça, como diz Eclesiastes.
Se a Igreja ensinar que o Evangelho nos direciona a amar ao próximo, e isto é o que faz com que a pessoa mude e não jogue lixo na rua, não polua o rio, entenda que o seu supersalário sai do suor de alguém bem menos afortunado (e o recuse), que haja respeito pelo idoso, na fila de carros na pista ou no caixa do banco, o juiz julgaria certo, o político não se corromperia, o casamento teria uma base mais sólida... então ela (a Igreja) conseguirá apontar os erros em todas as esferas de poder e sobre tudo o que está em desacordo no Brasil. E as pessoas compreenderão como o Evangelho altera destinos e realidades, de fato.
A mensagem da Igreja é poderosa e transformadora, o problema é que 95% do que se faz por aí, daquilo que se propaga e das discussões de lideranças, teólogos e fiéis, serve para defender interesses políticos, midiáticos, de poder e econômicos da cultura gospel; não está focado em ensinar os cristãos a conversarem com quem está ao seu redor explicando que ser discípulo de Jesus é apenas viver o mandamento de amar a Deus sobre tudo e não fazer para os outros o que não se quer que seja feito a si mesmo.
Portanto, o The Send Brasil não tem validade e nem relevância alguma para a propagação do Evangelho. E, se uma musiquinha qualquer aí usa tal ou qual termo, tanto faz... isto não gera diferença alguma para que pessoas compreendam como viver o Evangelho e como se, caso o vivessem, suas vidas e a sociedade no Brasil seriam verdadeiramente transformadas.
IBRAV - Uma igreja que vive e Compartilha Cristo!
Texto: pr. Ítalo Toni Bianchi.